
Não há menos beleza numa equação exata do que numa frase correta.
Marc Bloch
Minha resposta a essa pergunta pode ser vista como anárquica, mas não gosto de prender a História às amarras da ciência. Por isso não a vejo como tal.
História para mim é algo que não está acima ou abaixo de ciência, simplesmente não faz parte dela. História é História. Como uma categoria distintiva da ciência.
Tal preocupação era pertinente num contexto de reconhecimento e legitimação da História enquanto disciplina. Mas acho que passado esse momento, as discussões sobre essa matéria já deveriam ter avançado. No mundo em que vivemos, um trabalho não legítimo perde sua força de ação. Contudo, há coisas mais importantes do que a discussão acerca da cientificidade ou não da História. Alias, vejo a discussão sobre a cientificidade de qualquer matéria um tanto vazia, para o momento em que vivemos.
A meu ver, deveríamos nos preocupar com os usos que fazemos da História, em seus aspectos individuais e coletivos.
Semana passada, ao terminar um texto do Hartog, em que ele entoa Certeau através da questão: "o que é que eu estou fazendo quando faço história?", me peguei pensando sobre isso, como se fosse uma conclamação aos que fazem História. Uma reflexão necessária, ao mesmo tempo individual e coletiva.
Por que, pra que, pra quem fazemos História? A resposta a estas perguntas deveria funcionar como guia de nossos trabalhos. Acredito que o trabalho do historiador deve estar para além da Academia. Escrever para o mundo e não para “um mundo”. Um mundo fechado e que insiste em não se abrir, em não se reciclar. Pra quem falamos de verdade?
Um trabalho historiográfico deve ter um sentido e finalidade acima do reconhecimento ou realização pessoal, deve ter um sentido coletivo, um sentido sócio-político efetivo.
Não quero dizer com isso que apenas História Política ou temas sociais tenham vez enquanto trabalho de historiador. Todos os temas têm sua vez, a questão não é o que se trabalha, mas como se trabalha. Assim, mesmo um trabalho de micro-história, se não trabalhado de forma superficial, se bem contextualizado, se produzido de forma a falar com “o mundo”, também será um verdadeiro trabalho histórico, ao menos na concepção defendida por mim.
Minha preocupação é com a História que não vem do coração e fala para poucos. Uma produção historiográfica comercializada, feita a toque de caixa e para a manutenção seja do status pessoal, seja do pão “seu” de cada dia.Quero que meu trabalho, que nossos trabalhos, tenham sentido, por quê, pra que e pra quem. É disso que sinto falta. É isso que os convido a refletir.
História para mim é algo que não está acima ou abaixo de ciência, simplesmente não faz parte dela. História é História. Como uma categoria distintiva da ciência.
Tal preocupação era pertinente num contexto de reconhecimento e legitimação da História enquanto disciplina. Mas acho que passado esse momento, as discussões sobre essa matéria já deveriam ter avançado. No mundo em que vivemos, um trabalho não legítimo perde sua força de ação. Contudo, há coisas mais importantes do que a discussão acerca da cientificidade ou não da História. Alias, vejo a discussão sobre a cientificidade de qualquer matéria um tanto vazia, para o momento em que vivemos.
A meu ver, deveríamos nos preocupar com os usos que fazemos da História, em seus aspectos individuais e coletivos.
Semana passada, ao terminar um texto do Hartog, em que ele entoa Certeau através da questão: "o que é que eu estou fazendo quando faço história?", me peguei pensando sobre isso, como se fosse uma conclamação aos que fazem História. Uma reflexão necessária, ao mesmo tempo individual e coletiva.
Por que, pra que, pra quem fazemos História? A resposta a estas perguntas deveria funcionar como guia de nossos trabalhos. Acredito que o trabalho do historiador deve estar para além da Academia. Escrever para o mundo e não para “um mundo”. Um mundo fechado e que insiste em não se abrir, em não se reciclar. Pra quem falamos de verdade?
Um trabalho historiográfico deve ter um sentido e finalidade acima do reconhecimento ou realização pessoal, deve ter um sentido coletivo, um sentido sócio-político efetivo.
Não quero dizer com isso que apenas História Política ou temas sociais tenham vez enquanto trabalho de historiador. Todos os temas têm sua vez, a questão não é o que se trabalha, mas como se trabalha. Assim, mesmo um trabalho de micro-história, se não trabalhado de forma superficial, se bem contextualizado, se produzido de forma a falar com “o mundo”, também será um verdadeiro trabalho histórico, ao menos na concepção defendida por mim.
Minha preocupação é com a História que não vem do coração e fala para poucos. Uma produção historiográfica comercializada, feita a toque de caixa e para a manutenção seja do status pessoal, seja do pão “seu” de cada dia.Quero que meu trabalho, que nossos trabalhos, tenham sentido, por quê, pra que e pra quem. É disso que sinto falta. É isso que os convido a refletir.
Um comentário:
Como pode este tema ser ao mesmo tempo tão retrógrado e tão atual? Concordo com você quando afirma que a produção historiográfica “deve ter um sentido coletivo, um sentido sócio-político efetivo”. Penso isto, sobretudo quando se trata de pesquisas com dinheiro público, que, em História, raramente dão algum retorno útil para a sociedade que consciente ou inconscientemente as financia. Mas esta é uma questão que demandaria linhas excessivas para um simples comentário. O que me cabe comentar aqui é o problema da cientificidade da História. É certo que a busca pelo reconhecimento enquanto disciplina naquele momento – século XIX – é compreensivo. Porém, não se deve esquecer que tal necessidade deveu-se, principalmente a dois fatores. O primeiro, a valorização excessiva das ciências ditas “exatas”, diretamente vinculadas às rápidas transformações, consideradas como progresso, na sociedade européia do período. Este fato certamente invertera a situação anterior de exaltação à filosofia, que se dera por influência do iluminismo. E neste ponto entro no segundo fator, que bem poderia ser desdobrado em alguns outros, mas que aqui o farei em apenas dois. O primeiro, o afastamento que a História pretendeu em relação à Filosofia, que julgava displicente com as questões do passado e demasiadamente preocupada com as questões do “espírito”, do presente e do futuro. A História deveria buscar a objetividade (“positiva”) através de métodos cientificamente comprováveis – fontes? – e com o máximo distanciamento do seu objeto. Conseguiu? Penso que não. Mas acreditou-se que sim. E estas questões influenciaram diretamente no segundo ponto do desdobramento a que me referi. O surgimento da Sociologia, que ocupara o espaço que a História se recusava a preencher (a análise da sociedade), embora com as mesmas pretensões de objetividade, porém sem o afastamento da Filosofia. E este o momento, justamente em que aquela sociedade que valorizava as “ciências exatas” enfrentava sua primeira grande crie, tanto social quanto econômica – crise do padrão-ouro, aumento significativo da miséria mundial, falência do equilíbrio de poder, guerra mundial, crise de 29... – terreno, portanto, farto para a Sociologia. Começam então a aparecer as idéias dos Annales, buscando uma interdisciplinaridade que já vinha sendo praticada pela Sociologia, embora, ainda, com algumas ressalvas concernentes à Filosofia. Não foi, de todo, eficiente, embora tenha conseguido obscurecer a História “positiva” ou “positivista”. Deixou lacunas que foram preenchidas pela Antropologia, sobretudo no concernente à sua diacronia. Problema resolvido, posteriormente por Braudel, com sua “longa duração”. Depois disso a História, já devidamente “disciplinada”, passou por um momento de estabilidade que limitou as suas motivações para se renovar. Daí, talvez, o retorno às questões de aquela ser ou não uma ciência. Neste período de estabilidade – que, devo dizer, perdura até hoje – a História orientada por essa linha, chamada “Escola dos Annales”, perdeu-se em seus próprios métodos e cada vez mais mergulhou na subjetividade e, assim, afastou-se das grandes questões estruturais e fragmentou-se enquanto pensava estar-se ampliando. Esta é a “micro-História”: a história de tudo e ao mesmo tempo de nada; preocupada em demasia com o objeto e indiferente às questões estruturais; pretende-se social – e cultural e mental e psicológica e... – mas não se preocupa com a sociedade, mas apenas com suas “representações”, como se as representações fossem soberanas e alheias a tudo. A micro-História reduziu a história a narrativas quase que anedóticas, curiosas, divertidas. Daí, penso, a ausência de paixão, daí a História não “vir do coração”.
Bom, acho que já falei demais. Era só pra fazer um comentário e não um post. (E olha que eu nem falei do marxismo!) talvez algumas coisas tenham ficado soltas, mas isso se deve à falta de espaço. Qualquer coisa, conversamos pessoalmente.
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